O festival Sonic Scope nasceu em Setembro de 2001 a partir de uma iniciativa de dois artistas sonoros e visuais, Nuno Moita e João Vicente (André Gonçalves juntar-se-ia à equipa organizadora na edição de 2002), que fundaram posteriormente a plataforma editorial Grain of Sound. O objectivo do evento, que se quis anual, foi dar a oportunidade de mostrar, num único contexto, novas linguagens ou novas propostas de projectos marcantes da realidade experimental em Portugal, sempre que possível em confronto directo com propostas estrangeiras. Vitriol, Soundtrap, Manuel Mota, Margarida Garcia, Sei Miguel, Carlos Santos, Stapletape, Vítor Joaquim, David Maranha, Caveira, Curia ou @c já circularam pelas diferentes salas que o Sonic Scope foi ocupando desde a sua primeira ocupação (Fonoteca de Lisboa, Galeria Zé dos Bois ou Gare Marítima de Alcântara, por exemplo).
Ouçam as propostas que mostramos como a tal realidade alternativa e deixem-se surpreender pelo que desconhecem e pelo que reconhecem. Da experiência acumulada dos Osso Exótico à vitalidade dub dos Gala Drop, da electrónica texturada dos Oto à dinâmica colectiva da Variable Geometry Orchestra ou do embalo dos drones de The Beautiful Schizophonic ao jogo de volumes dos Scarp e Gabriel Ferrandini, eis uma paleta com cores suficientes para iluminar toda esta tarde de domingo.
“Since 1989, the Portugal avant garde ensemble Osso Exótico have created a stunning body of work. Current members are André Maranha, David Maranha and Patricia Machás, but besides the recordings, very little historical information can be found about the group. Rather, the music speaks for itself.
Once the ball gets rolling, it rolls, it makes ripples become waves, and waves become a thunder storm. It’s in these moments when the true power of the music comes alive.”
in Vital Weekly
Manuel Mota joins Osso Exótico, once again, in this performance at the Sonic Scope Festival.
Sometimes the laptop is a vault of memories. It’s loaded with many sound fragments from our wireless imaginary past. You open it and you pick up by chance an old sound. And you just don’t know why. A melody, a voice or the gentle noise of your footsteps on a solitary ground, every sound is like an unknown spectre glittering from the bottom of the hard-disk. A field recording of a dream. And yet, you feel like you’re listening to it for the very first time and its illusive flow provokes a deep emotional reaction on you. Suddenly everything makes sense; your auditory life comes alive in an unexpected way. Nothing ever felt so intense. So close. You turn into this body of speed and sound. The time and space around you dissolves as you slowly start to build the piece from there. Adding new points of impact in each listener’s unique inner vision.
Creating this kind of happy accidents is what makes composition basically an improvisation process. And the wide screened new phantom song will grow beautifully in your ears. Some years from now, you will casually find this song in your laptop. You will listen to it again. For the first time. Triggering new thrills on you, becoming an everlasting new song. For now, it’s only a future nostalgia created to be forgotten until the right time comes
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The sentimental destiny in music or, in search for the acoustic truth of the heart. The Beautiful Schizophonic is romantic drone music for modern loners
Laetitia Morais é Licenciada pela Faculdade de Belas Artes do Porto, em Artes Plásticas - Pintura, complementado por estudos extra-curriculares em Arte Sonora e Pós-produção vídeo, na Un. Castilla La-Mancha (Espanha).
Iniciou experiência profissional como cenógrafa de uma série infantil da RTP, provação para o desenvolvimento de actividade artística, assente em colaborações com o Teatro, a Performance e a Música Experimental. Nestes projectos, explora o conceito de distorção da paisagem e profundidade de campo, através de cenários digitais manipulados em tempo real e reactivos às informações geradas por diversos agentes.
Tem vindo igualmente a colaborar com criadores de diversas áreas como Zavoloka; Vitor Joaquim; The Beautiful Schizophonic; Mosaique; Rui Monteiro; NIP; Inesc; Companhia Marionet; Carla Oliveira; Carsten Goertz e Xda. É Docente, desde 2008, na Escola Superior de Educação de Coimbra.
“O primeiro e homónimo disco dos portugueses Gala Drop (Nelson Gomes, Tiago Miranda e Afonso Simões) é um dos momentos mais singulares da música portuguesa das duas últimas décadas. Foge a catalogações ou variáveis reconhecíveis dentro do panorama nacional. Não é pop, mas também não é rock. Tem matrizes da música negra ou da electrónica, mas não faz dançar numa discoteca. É uma obra híbrida, construída entre géneros (kraut-rock, electrónica, música ambiental, dub, psicadélica) que retoma o trilho de legados deixados por gente como os Can, Pop Group ou os A.R. Kane.”
José Marmeleira
in Time Out, 28 de Outubro de 2008
“Adding weight to the suggestion that a rediscovery of Fourth World principles might be underway – Gang Gang Dance “Saint Dymphna” providing the rallying cry for a host of outfits appropriating indigenous musics – the debut from Lisbon’s Gala Drop is a confident work of sonic collage, taking in elements of dub and 23 Skidoo-style post-punk circa “The Gospel Comes To New Guinea” while displaying a skeletal melodicism owing much to “Future Days” and “Soon Over Babaluma”-era Can. Reservations concerning the blasé manner in which Gala Drop cut and paste their sources are overcome by the transcendent feel of the album’s seven tracks, with production work by Rafael Toral limning the percussive workouts with a space rock glow.”
Joe Stannard
in Wire #300, February 2008)
O projecto Oto foi criado a propósito do evento Serralves em Festa, mas contém em si uma força e motivação de longa data entre os três músicos de cooperarem num projecto desta natureza. A abordagem electrónica é realizada por meio dos instrumentos de longa data de cada um, instrumentos onde naturalmente cada músico é mais fluente. O que se deseja alcançar é fruto de uma inter-comunicação fluida: a orgânica. A sonoridade passa pela criação de ambientes e texturas que lhe conferem uma natureza harmoniosa e acústica em contraste com a característica natural da electrónica: a possibilidade da transformação /mutação dos sons e das das propriedades designativas. (Propriedades essas que o ser humano utiliza, através da memória/experiencia, para reconhecer determinados sons). A interacção realizada pelos músicos ultrapassa as usuais movimentações estáticas da música ambiental electrónica, as texturas progridem harmoniosamente sendo improvisadas em tempo real pelos executantes que interligam as suas ideias em conjunto para criar estas esculturas sónicas.
Scarp
Scarp is a sound art trio by Joao Silva, Nuno Moita and Nuno Morão based in Lisbon and Alcácer do Sal. The portuguese intermedia artist, André Gonçalves, is their special guest for this performance at the Sonic Scope #9
Gabriel Ferrandini
He really is the image of the universal music he plays. Born in Monterey, California, Gabriel Ferrandini is the son of a Portuguese father born in Mozambique but relocated to Brasil with only 2 years of age, and of a Brasilian mother with Italian ascendecy migrated to the United States in her teenage years. This "citizen of the world" lives in Portugal since he was 9 years old, and it was in this European country where, ironically, he discovered jazz and the practice of improvisation. This fact is explained by the richness of the jazz and improvised Portuguese music scene, with already big repercussions in the world - as we verify knowing that a Portuguese discographic company, Clean Feed, was chosen by the online journal All About Jazz as Label of the Year in 2008. This is the context where the young musician is firming is name as one of the most important drummers around. With Rodrigo Amado's Motion Trio, Red Trio, Nobuyasu Furuya Trio, and the electro-acoustic / noise band Flu, or playing in ad-hoc formations with Rob Mazurek, Alberto Pinton, Alfred "23" Harth, Raymond Strid, and David Stackenas, among others, is presence is strongly felt. Ferrandini has a very personal view of the work with a pair of sticks, somewhere between Paul Lytton and Paal Nilssen-Love, and that makes all the difference. As the magazine jazz.pt wrote, "the future waits for him".
Rui Eduardo Paes (music critic, writer)
Ele próprio é a imagem da música universal que toca. Nasceu em Monterey, na Califórnia, filho de pai português natural de Moçambique, mas emigrado para o Brasil com apenas 2 anos de idade, e de mãe brasileira com ascendência italiana que foi viver para os Estados Unidos com 16 anos. Em Portugal, o “cidadão do mundo” Gabriel Ferrandini está desde os 9, tendo sido por cá, ironicamente, que descobriu o jazz e a improvisação. Explica esse facto a riqueza da cena jazzística e improvisada nacional, que tantas repercussões começou já a ter no mundo – como se verifica, de resto, pelo facto de a editora discográfica portuguesa Clean Feed ter sido escolhida em 2008 pelo jornal online All About Jazz como Etiqueta do Ano. É neste contexto que se vem afirmando o jovem músico, e tanto assim que está a tornar-se muito rapidamente num dos mais importantes bateristas em actividade no mais ocidental dos países europeus. Com o Motion Trio de Rodrigo Amado, o Red Trio, o grupo electroacústico Flu e em outros contextos, entre os quais colaborações com figuras de renome como Rob Mazurek, Alberto Pinton, Alfred “23” Harth, Raymond Strid e David Stackenas, entre outros, Ferrandini impôs uma perspectiva muito pessoal do trabalho com as baquetas, algures entre os estilos de Paul Lytton e Paal Nilssen-Love. Como já escreveu a revista jazz.pt, “o futuro espera-o”.
A improvisação livre é o ponto de partida para a música da Variable Geometry Orchestra, que traz à Sala 2 uma mistura de sonoridades acústicas, eléctricas e electrónicas.
Formada por duas dezenas de elementos, intérpretes de instrumentos de cordas, sopro, percussão e de uma secção electrónica, a Variable Geometry Orchestra é dirigida pelo violinista/violetista Ernesto Rodrigues.|
Através da estruturação da orquestra em naipes instrumentais, a composição em tempo real oscila entre a organização formal do caos, do “tutti” orquestral, e situações de diálogo entre pequenos grupos. Joga-se com o ruído e com o silêncio, sendo este a ausência de um som identificável.
Cada músico da Variable Geometry Orchestra pode participar em toda a espécie de acontecimentos sonoros que estejam a ocorrer nesse preciso momento no espaço envolvente, ou simplesmente escutar o que outro músico tenha começado entretanto a fazer, sem a preocupação de responder imediatamente.
A construção da composição em tempo real é organizada através do delicado equilíbrio entre as diferentes massas sonoras que preenchem o espaço acústico, revelando justaposições de instrumentos específicos que actuam como células sonoras móveis no todo orquestral, sempre sob o olhar atento do regente, que fornece indicações gestuais aos diversos grupos.
Ernesto Rodrigues nasceu em Lisboa, em 1959, tendo acumulado experiências em estilos tão variados como a música contemporânea, o free jazz, a música popular, a música improvisada e a música electrónica.
Activo como músico em diferentes áreas de criação, desde a dança, performance, cinema e video, criou, em 1999, a editora discográfica Creative Sources Recordings, inicialmente com o intuito de editar os seus próprios trabalhos, alargando-a mais tarde a centenas de músicos improvisadores de todo o mundo.